Tempestades e cheias: porque o corpo continua em alerta?
- Psicóloga Mariana Gomes

- 16 de fev.
- 3 min de leitura

Nos últimos dias, com as cheias e tempestades em várias zonas do nosso país, é natural que muitos de nós estejam a viver (ou a reviver) sentimentos de medo, incerteza e sensação de perda de controlo, quer tenham sido diretamente afetados por estes desastres naturais, quer tenham acompanhado tudo com preocupação...
Por essa razão, hoje queria trazer-lhe algumas orientações práticas para esta fase que muitas vezes chega depois do “pior já passou”: a fase pós-choque.
A fase pós-choque: quando o perigo passa, mas o corpo continua em modo de alerta.
Depois de uma situação ameaçadora, o nosso sistema nervoso pode demorar a receber a mensagem de que “já passou”. Nesta fase, é comum sentir:
o sono mais leve, ter despertares noturnos/pesadelos...
irritabilidade, choro fácil, cansaço intenso...
pensamentos obsessivos (“e se voltar?”, “e se acontecer de novo?”);
dificuldades de concentração, e em tomar decisões;
(e por vezes culpa, por estar numa situação melhor do que outras pessoas).
Tudo isto são manifestações perfeitamente normais, dado o contexto. E muitas vezes apenas significam isto: o seu corpo ainda está a tentar protegê-lo/a.
Porque é tão difícil “funcionar” quando as nossas necessidades básicas ficam abaladas
Em termos muito simples, quando o cérebro deteta alguma ameaça real, ele reorganiza as suas prioridades: 1º vem a segurança, a alimentação/água, o sono... e só depois o foco, a motivação e a produtividade. São apenas instintos de sobrevivência.
Quando as nossas necessidades básicas não estão 100% garantidas, o nosso corpo tende a ficar mais reativo, e as emoções aumentam a sua intensidade.
O que ajuda na prática (TCC + regulação emocional), sem pressão
1) Nesta fase não tente fazer tudo, faça apenas o básico (o pequeno próximo passo que pode fazer hoje). Tenha uma rotina mínima, onde possa: assegurar as suas refeições, beber água, fazer a sua higiene básica, arranjar pausas de descanso a meio do dia (sem ecrã, se possível), exercitar o seu corpo durante 5-10 minutos, ter bons horários de sono... O estabelecimento de rotinas passa a mensagem de segurança para o nosso corpo, e mente.
2) Limite a sua exposição às notícias. Mantermo-nos sempre ligados a vídeos, imagens e atualizações do estado do tempo, metereologia... pode manter o nosso sistema nervoso em modo de alerta. Informe-se apenas 1-2 vezes por dia, e em fontes fidedignas.
3) Contacte pessoas de confiança, para não se sentir sozinho/a. A co-regulação emocional é real, não temos sempre que nos regular sozinhos. O corpo muitas vezes acalma em relações saudáveis. Por isso, sempre que possível, entre em contacto fisicamente, ou à distância de uma mensagem/chamada, com amigos e familiares de confiança para si.
4) Pratique exercícios de respiração (de forma lenta, e profunda), para ajudar a desacelerar o seu sistema nervoso.
Se está a atravessar danos materiais, mudanças forçadas, ou simplesmente medo real, faz extremamente sentido sentir-se em modo sobrevivência.
Nesta fase, é válido reduzir o objetivo do dia a: manter-se em segurança, pedir ajuda e viver um dia de cada vez.
E se vir que, com o passar das semanas, surgem sintomas como: ansiedade muito alta e persistente, flashbacks/imagens intrusivas das tempestades, insónias, ou "adormecimento" das suas emoções... poderá ser útil marcar uma consulta de psicologia, e delinear com o psicólogo um plano para o/a ajudar a sentir melhor.
Não tem que passar por este momento sozinho/a 🤍




Comentários